Em uma discussão sobre o que é ou não é arte – um total desperdício de tempo e energia, claro, se a discussão não tivesse sido com um grande amigo, e aí mais vale o tempo passado com um amigo do que descobrir a Verdade (que desconfio não existir, ainda mais em arte) –, meu amigo fez uma pergunta que achei bastante provocadora: por que um programa de computador não pode ser considerado uma obra de arte? Ele não se referia à interface gráfica do usuário, nem ao design geral do software, nem a qualquer aspecto utilitário do produto final relacionado com sua função ou capacidade de interação. Sua pergunta dizia respeito às linhas de código do programa, ou seja, aquele conjunto de instruções em linguagem de programação que parecem grego para quem é leigo, ou chinês para quem é grego (e leigo).
Meu amigo, que é desenvolvedor por profissão, tem um talento para fazer perguntas diferentes, que podem ser consideradas geniais ou idiotas, dependendo da disposição do interlocutor em pensar de maneira igualmente diferente. Minha primeira reação, naturalmente, foi considerar a pergunta uma bobagem. Afinal, as linhas de código de um programa teriam tanto valor estético quanto uma declaração do imposto de renda.
Mas eu seria um tremendo preconceituoso reacionário se baseasse minha opinião em uma noção tão fajuta como “valor estético”.
Um programador treinado em uma certa linguagem de programação pode experimentar prazer estético ao observar soluções elegantes para problemas informáticos. Ele pode achar o programa lindo. A característica gritante de um programa de computador em relação a sua distância convencional das artes é sua natureza puramente técnica, sua objetividade absoluta – não esquecendo que falamos aqui das linhas de código – e sua motivação funcional. A função da arte pode ser significativa, mas uma obra de arte geralmente não tem função relevante (“Para que serve isso?”), pelo menos para os fins desta discussão. Já um programa de computador serve para alguma coisa, qualquer coisa, no sentido de que faz alguma coisa. Um programa de computador com apenas uma linha de código tem uma função, nem que esta linha seja uma instrução que signifique “Ignore esta linha”. Não estou enfatizando o aspecto funcional da programação de computadores para fazer um paralelo semelhante com a arquitetura, um clássico exemplo da dicotomia entre aspectos funcionais e estéticos; ainda assim, um programa de computador é, por definição, um algoritmo – uma série de instruções funcionais. Isso pode ser arte?
Slow Motion Sound (1967) é uma obra conceitual de Steve Reich, cuja partitura é uma folha de papel escrita à mão com a seguinte instrução:
Muito gradualmente, diminua a velocidade de um som gravado [aumentando] em muitas vezes sua duração original sem mudar em nada sua afinação ou timbre.
O que é a obra de arte: a partitura, representada pelo algoritmo de Reich, ou a performance de Slow Motion Sound? Se concordarmos com o compositor e musicólogo Celso Loureiro Chaves que a música não existe se ela não é tocada, então a partitura não existe enquanto obra de arte musical – mas não há nada que impeça a partitura de ser considerada uma obra de arte visual (uma consideração comum, de fato, a diversas obras de compositores da década de 60). Ainda assim, a apreciação estética de linhas de código sugerida por meu amigo não tem a ver com o aspecto visual de um programa, mas com o aspecto estrutural-funcional-técnico, o que nos leva a uma reformulação da pergunta original: pode haver arte na pura técnica?
Quando a técnica é excepcional, ela contribui com o significado da obra de arte. Qualquer pessoa com qualquer sensibilidade estética pode apreciar uma pintura de Jackson Pollock, mas um pintor tenderá a ver Pollock através de seus óculos de artista, levando em consideração (consciente ou subconsciente) a profundidade e complexidade de sua técnica peculiar. Essa consideração pode enriquecer a apreciação estética.
Talvez um programa de computador extremamente bem-escrito ou criativo ou original possa evocar em algumas pessoas o deleite estético, e essas pessoas possam tomar esse programa como um objeto artístico. Talvez linhas de código mal-escritas, desorganizadas, ineficientes e com erros de sintaxe não possam ser consideradas uma obra de arte – mas uma obra de arte ruim ainda é arte, e é aí que a porca torce o rabo. Muitas pessoas acham que só existe arte quando o artista possui um bom domínio da técnica, como se o artista fosse um malabarista assalariado, sujeito ao olho da rua sempre que sua apresentação não fosse virtuosística o suficiente para arrancar um “OH!” do público. Outras pessoas acham que nada disso é necessário, que basta uma só pessoa dizer que tal objeto é arte para torná-lo tal. Quem se surpreenderia de encontrar na Bienal do Mercosul uma folha impressa com uma série de linhas de código, colada na parede junto a um cartãozinho: “Sem título (2011), Fulano de Tal. Impressão sobre celulose”?
Eis que chegamos ao fim do post, e não sei se um programa de computador pode ser considerado arte ou não. Mas se arte tem esse efeito de nos fazer pensar em algo diferente ou de maneira diferente, nada disso foi um desperdício de tempo ou energia – afinal, qual assunto seria capaz de agrupar, no mesmo texto, algoritmos, gregos, linhas de código, Pollock, Steve Reich e imposto de renda?








